segunda-feira, 12 de setembro de 2011

SOARES EXCURSÃO

 
A excursão do ABC ao exterior
 
No dia 17 de agosto de 1973, O ABC embarcava para a excursão que entraria para o Livro dos Recordes (Guiness Book), como a mais longa permanência de um clube fora do seu país. Foram 102 dias longe da maior torcida do Rio Grande do Norte.

A FRASQUEIRA. Provavelmente nenhum outro clube do Brasil tenha tido manifestação igual à prestada à delegação do ABC, pela sua imensa torcida, ontem a noite. Tirando o carnaval pela conquista das Copas de 58, nada superou o aglomeramento humano presenciado depois que o caminhão de bombeiros recebeu os jogadores abecedistas.

O percurso de alguns quilômetros entre Neópolis e a sede do ABC, na rua Potengi, foi vencido em mais de três horas, sem que o veículo pudesse progredir mais do que o simples passo normal de uma pessoa.

Enquanto isso, em frente à sede do alvinegro uma multidão impressionante aguardou, pacientemente, a lenta trajetória do carro que conduzia os recordistas brasileiros no exterior. No palanque, dirigentes da Junta Governativa, imprensa, autoridades e familiares dos jogadores e demais integrantes da delegação, esperaram pela delegação para os aplausos da torcida. Houve discursos, abraços, choros, lances de grande emoções e a "frasqueira" dançou ao som do hino do ABC.

DELEGAÇÃO:
Chefe da delegação:  Jácio Fiúza,
Supervisor:  José Prudêncio Sobrinho, Técnico:  Danilo Alvim,
Assessor de Imprensa:  Celson Martinelli, Médico: Sérgio Lamartine, Preparador Físico:  Sebastião Cunha, Massagista:  Zózimo. 

Jogadores:
Erivan, Sabará, Edson, Telino e Anchieta,Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio, Jorge Demolidor e Morais. Reservas: Veludo e Floriano (goleiros), Wagner e Valter Cardoso (zagueiros),Valdeci Santana, Soares e  Baltazar (atacantes).

REGISTROS: A Revista Placar dedicou três páginas à excursão do ABC. A reportagem, assinada pelo correspondente em Natal, Rosaldo Aguiar, trouxe o seguinte título: O ABC do Futebol Brasileiro.
Depois do jogo contra a seleção da Tanzânia, no dia 03 de dezembro, um emissário do Governo de Uganda se apresentou no vestiário do ABC e propôs mais uma partida, pagando o triplo da cota: três mil dólares. O chefe da delegação ofereceu a metade do dinheiro para o time mas os jogadores recusaram. Queriam porque queriam voltar pra casa.
Na estréia, na Turquia, o ponta Libânio foi escolhido o melhor da partida. Botou o lateral pra dançar. Terminada a partida, a comissão técnica foi procurada por um cartola turco, que perguntou o preço do passe do atacante mas recebeu o não como resposta. Libânio só seria vendido após a excursão.
Candidato a presidente da FIFA, João Havelange se encontrou com a delegação do ABC na Iugoslávia. Partiu dele a indicação do clube ao empresário Elias Zacour.

http://www.abcnatal.com.br/REPORTAGEM/REPORTAGEM_HTM/reportagem_009.htm

SOARES


Pedala, Soares!
 
SHOW Atleta viveu auge no brasileiro de 1972; arrasou e humilhou todos os marcadores
Hoje, aos 55 anos, o ex-craque ainda exibe seu talento nas peladas de fim de semana junto aos muitos amigos que fez.

Seu nome está entre os tantos que brilharam entre o fim da ‘‘Era JL’’ e o início da ‘‘Era Castelão-Machadão’’ no futebol potiguar. Era uma vez um certo Soares, que não era técnico nem humorista - mas fez muito ABCdista sorrir no comecinho da década de 1970, como ponta-esquerda. O que Robinho (aquele mesmo, do Santos, hoje no futebol espanhol) fez um dia desses no Santos - as ‘‘pedaladas’’ e outras diabruras de assustar qualquer zagueiro, negócio para além do futebol, quase uma arte, Soares já fazia muito antes de Robinho existir...

Na identidade consta Antônio Soares de Albuquerque, nascido em Recife (PE) a 11 de abril de 1951. ‘‘Vim para Natal com 19 anos, mas antes tive uma boa história no futebol amador em Recife’’, principia. ‘‘Comecei no Náutico, aos 12 anos. Entrei lá depois que foi realizado uma espécie de campeonato aberto, onde ao final o Náutico fez uma ‘peneira’, escolhendo os melhores da competição’’.

ABC
Foi aí que o ABC entrou em sua vida. Era o ano de 1970. ‘‘Vim ao ABC através de Prudêncio (José Prudêncio Sobrinho). Prudêncio, ‘meu pai’... A grande virtude de Prudêncio é que ele ia observar (os atletas), ele ia assistir treino - sem se identificar! O técnico pedia algo, ele ia verificar, e depois é que ia acertar alguma coisa com os atletas. Muito diferente do que acontece hoje...’’

Porém, Soares chegou a Natal com o Campeonato Estadual pegando fogo. ‘‘Cheguei do meio da competição para o fim, não tive condição de jogo. Vi o ABC campeão’’. Só estreou mesmo pelo alvinegro depois do Estadual... em ABC x Botafogo-PB, jogo da ‘‘entrega das faixas’’ de campeão. E estreou fazendo gol!

Pronto, o caminho estava aberto para Soares atuar efetivamente pelo ‘‘Mais Querido’’ no ano seguinte. Só que, chegado o ano de 1971, mexeu com o que não devia - o jovem rapaz andou ‘‘bulindo’’ com uma moça, a honra entrou em jogo e o tempo fechou (com alguns ingredientes dignos de novela rocambolesca, ou até de uma quadrilha junina). E agora? ‘‘Fugi para o Náutico, lá eu disse que o ABC tinha me dado férias! E o pessoal do ABC me procurando: eu tinha dito que iria para a praia, e não voltei mais...’’ Foram três meses de sumiço, até que o rapazinho foi localizado por Prudêncio, que o ‘‘resgatou’’ de avião. E o futebol, como ficou? ‘‘O ABC foi bi em 1971. Em um jogo eu era titular, em outro era reserva, e em outro ainda ficava nas arquibancadas mesmo...’’.

Quando viu, já estava em 1972. O ano reservaria grandes mudanças, não apenas para Soares mas para o futebol local. Primeiro, o atleta - ‘‘O técnico do ABC era Célio de Souza. Ele acreditou em mim, e o que fez comigo na parte psicológica... acho que é o que falta no ABC, hoje. Para mim, no ABC hoje só falta um pouco mais de cabeça’’. Atuou no Estadual - o alvinegro abocanhou o tri. E a partir daqui, mudanças no futebol local: do JL, os clubes passaram a atuar no Estádio Castelão (hoje Machadão) estalando de novo - e o ABC participou do então Campeonato Nacional (hoje Brasileiro Série A). ‘‘Jogamos contra as melhores equipes do país. Em todos os jogos que participei, onde não fui o melhor em campo, fui quase... ganhei muito relógio e rádio de pilha!’’

Cobiçado
Tanto aprontou em campo que acabou se tornando objeto de cobiça de grandes clubes do país. ‘‘Era o Vasco, o Bahia, o Corinthians... e aí começou um, por assim dizer, leilão. Supervisores de times grandes entravam direto no vestiário do ABC logo após o jogo, eu ainda estava no banho!, e as propostas eram feitas ali, na minha frente... eu ficava até constrangido, sei lá, me sentia meio como um cavalo de raça ou um (bode) pai-de-chiqueiro...’’

Não houve clube que não apresentasse proposta naquele ano de 1972. Ao fim do Campeonato Nacional, o ABC aguardou algum clube se manifestar para valer. Nada. Já iniciava o ano de 1973. ‘‘Aí ‘Seu’ Agnelo Alves (à época conselheiro do ABC e do Botafogo-RJ; hoje prefeito em Parnamirim) chegou e disse ‘Você não vai para coisa alguma, vai sim é para o meu Botafogo!’ ’’.

Movido pela paixão
Pronto, lá foi Soares para o Rio de Janeiro. Mas não era bem para o Botafogo que queria ir... ‘‘Foi meu erro. Se eu tivesse ido para o Vasco, ou talvez para o Corinthians, com as condições que eu tinha, estaria na Seleção Brasileira na certa’’, calcula.

Para ele foi tudo uma grande novidade - pela primeira vez andou de carro importado (dos dirigentes do Botafogo, que foram recebê-lo no aeroporto); e conheceu uma dependência tão decente do clube - com duas camas, ar condicionado e frigobar, ao lado do campo - que preferia ficar ali do que num hotel... não fosse aquela sala justamente a enfermaria!

Deveria ter ficado uns cinco meses no Rio - mas voltou ao ABC depois de apenas três meses. ‘‘Forcei a barra para voltar a Natal. Até telefonava a Aluízio Bezerra dizendo ‘Quero sair daqui, estão me maltratando!’...’’. Tudo por um paixão - ‘‘Tinha uma namorada no ABC. Quando fui para o Botafogo levei uma foto dela comigo. Vim a Natal duas vezes de avião por conta própria, só para vê-la’’. Tanto aprontou que conseguiu. ‘‘Quinze dias depois que voltei a Natal me casei com ela (‘‘Dona’’ Albani). Ficamos 24 anos casados’’.

Andarilho
Voltou ao ABC a tempo de ver o time tetracampeão. ‘‘Pena que ficamos fora do Campeoanto Nacional. Aí teve aquela excursão...’’ - a famosa Excursão Internacional, onde os atletas do Mais Querido passaram por três continentes. ‘‘Aquela viagem me deu um conhecimento de geografia incrível, e um desejo de aprnder inglês que tenho até hoje’’.

Depois da excursão praticamente todo mundo foi emprestado. Soares foi parar no Fortaleza-CE - ‘‘Fui para lá, deixei Albani aqui grávida! Você vai achar que isso era uma irresponsabilidade. Mas é que naquele tempo eu era imediatista: quando queria, queria para agora!’’, se explica.

Estreou jogando contra o Guarani, mas logo depois veria seu mundo virar de ponta-cabeça - ‘‘Não joguei mal. Mas dois dias depois veio um telegrama de Natal: era minha sogra avisando que Gustavo (o filho mais velho) tinha nascido. Na véspera do jogo seguinte fui para a rodoviária, mas não havia ônibus, aí fui para o aeroporto, como havia feito no Rio de Janeiro. Cheguei aqui de madrugada. Fui vê-la. Olhei e comecei a pensar - ‘Agora tenho ela e o menino...’ ’’

E veio 1974. O ABC perdeu o que seria o pentacampeoanto. ‘‘‘Briguei’ - no bom sentido, longe de mim uma briga de verdade - com Prudêncio para obter meu passe. Comecei a andar pelos clubes’’. Passou dois anos e meio no Treze-PB, e em 1977 foi para o Botafogo-PB. Não ficou muito tempo, em virtude de uma mudança de técnico - ‘‘O ataque era Libânio, eu e Jorge Demolidor, aí apareceu um técnico de São Paulo, acho que o nome dele era Fito, e trouxe uma leva de jogadores ‘velhos’. Um deles se chamava Pial. Mal falavam comigo!’’ - com o passar dos treinos, sentiu que a idéia do técnico era colocar Pial em seu lugar, o que estava virando motivo de piada para os atletas que já estavam no clube em virtude das condições físicas do, digsmos, substituto. Anteviu a ‘‘rasteira’’ - expressão que parece gostar de voltar à moda vez em quando... - e achou melhor sair do Treze. ‘‘Resolvi mudar de profissão’’.

" Jogamos contra as melhores equipes do país....ganhei muito relógio e radinho como melhor em campo"  Soares -  Ex-jogador do ABC

Passou um ano criando galetos
De todo jeito, parou com o futebol. Foi para São Paulo, onde trabalhou por dois anos e meio na Nossa Caixa. "Depois eu voltei para cá, para uma granja de minha sogra em Felipe Camarão. Você não vai acreditar, mas é verdade: fui criar galetos! Passei um ano cm os galetos..."
Quando viu, estava no Alecrim. "Era curioso, todo dia, próximo ao meio-dia, passava por ali um cara de capacete e moto acenando com a mão. Um dia pedi que ele parasse. Era Nilson Backenbauer, na época jogador do Alecrim. Ele me disse "Você tem que voltar, e voltar pelo Alecrim" e eu respondi "Mas não tenho tempo..." O resultado disso é que joguei uns 8 ou 9 meses pelo Alecrim!"
Depois da - digamos - pausa no Alecrim, Soares passou pela Sparta e, em 1982, pela Varig, onde trabalhou até 1994. "Hoje estou trabalhando para Deus, esperando uma oportunidade". Quem se habilita?
E a família? Com Albani, Soares teve três fihos- Gustavo ("32 anos, está na Aeronáutica"), Daniele ("Está com 26") e David ("23 anos, trabalha no SeaWay") - que lhe renderam os netos Douglas, Deise e Vítor (filhos de Gustavo), Bárbara e Priscila (filhas de Daniele), além de Pedro (filho d David).  Desde 1998, está casado de novo - agora com Cleoneide, com quem está até hoje. "Mais conhecida como Neide. E aí veio Toinho (Antonio Soares, hoje com 6 anos).

BATE-BOLA

O POTI - Você não disputou o Estadual de 1970. Mas que história foi essa de estrear no jogo das Faixas?
Soares - 
Foi! O Botafogo-PB foi convidado para o jogo da entrega das faixas de campeão ao ABC. Aí entrei em campo. Deu ABC, 1 a zero, gol meu!

O POTI - Consta que quando Prudêncio foi lhe buscar da "fuga para Recife" ele disse algo profético....

Soares - 
Ele me disse bem assim - " Vou levar você de avião, para nunca mais voltar!". E ele tinha uma boca! Dito e feito, não vou lá há 35 anos!

O POTI - Qual foi seu jogo mais importante?
Soares - 
Sem dúvida, ABC x Vasco. Terminou 2 a 1 para o Vasco - Tostão e Roberto Dinamite para o Vasco, e achou que Petinha para o ABC. Esse jogo me projetou para todo o país. Foi nesse jogo que teve aquele negócio com o Fidélis..

O POTI - ..a sequência de dribles que deixou o homem sentado, o Touro Sentado, literalmente?
Soares -
Exatamente. Dei tantos dribles nele que ele pediu para ser substituído""" E depois dojogo, ele foi para o vestiário do ABC, dizendo que eu tinha que ir para o Vasco, ele não queria me ver como adversário.

http://www.abcnatal.com.br/REPORTAGEM/REPORTAGEM_HTM/reportagem_084.htm

SOARES


Soares 
Da esquerda p/ à direita com a camisa do: Botafogo/RJ, ABC/RN e Alecrim/RN
Na década de 70, muitos craques desfilaram pelos gramados dos estádios de futebol do RN, principalmente pelo estádio Castelão em Natal/RN.
Antonio Soares de Albuquerque, nascido na cidade de Recife/PE, em 11/04/1951, foi um deles. Sabem de quem se trata? Soares.
Soares, começou sua carreira no Clube Náutico Capibaribe de Recife, o Timbú Pernambucano. Como não poderia ser diferente, Soares chegou ao ABC FC, trazido pelo velho e conhecido de saudosa memória, José Prudêncio Sobrinho, o Pruda, um dos maiores diretores da história do ABC FC.
Na época, o ABC tinha uma grande equipe, e Soares chegou para reforçar ainda mais o time alvinegro. Época de ouro do futebol potiguar, para se ter uma idéia, o ABC enfrentava de igual para igual, os maiores times do futebol brasileiro, como: Flamengo/RJ, Botafogo/RJ, Vasco/RJ, Fluminense/RJ, São Paulo/SP, Palmeiras/SP, Santos/SP, mais precisamente no ano de 1972, ano em que o ABC disputava o Campeonato Nacional, o que equivale hoje à série “A” do brasileiro.
Após o encerramento do Campeonato Nacional de 1972, vários clubes do futebol brasileiro tentaram tirar o jovem Soares do ABC. Clubes como o Bahia/BA, Vasco/RJ, Corinthians/SP e Botafogo/RJ, sorte para o Botafogo de Mané Garrincha, que contratou Soares e lá ele fez grandes jogos ao lado de outras estrelas do futebol mundial.
O ponta esquerda Soares, foi um dos integrantes da delegação do ABC que participou da Excursão Internacional.
Além do ABC, Soares defendeu as cores do Alecrim/RN, Botafogo (RJ), Botafogo (PB), Treze (PB), Fortaleza (CE).
Conversando com o amigo e profundo conhecedor das coisas do futebol, o enciclopédico, Ribamar Cavalcante, ele foi enfático em dizer: “as pedaladas que Robinho executa hoje, Soares já fazia na década de 70. Assim, como para muitos, o que faltou para Soares foi à mídia que não existia com a mesma intensidade que existe hoje”.
Após encerrar a carreira de jogador de futebol, Soares foi trabalhar na Varig S/A, empresa de aviação já extinta. Hoje ele reside no conjunto Planalto em Natal/RN.
Com a colaboração do amigo – Ribamar Cavalcante
http://www.olheogol.com/onde-anda-seu-craque/

quinta-feira, 28 de julho de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011


VERGONHA QUE NÃO TENHO DE SER NORDESTINA
Sheila Raposo - Jornalista


Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.

Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.

Sou nordestina. Falo oxente, vôte e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria e José! Proseio com minha língua ligeira, que engole silabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E olhe: acho que não vai sair é nunca!

Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que, quando a gente termina de engolir, o suor já está pingando pelos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa!

Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural.

Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala.
Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô negócio bom!

Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história.

Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita.

Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro.

Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas.

domingo, 17 de julho de 2011

Ídolos do futebol são vítimas da hepatite C

Façamos uma viagem para as décadas de 70 e 80 e adentremos o vestiário de um time de futebol profissional (por favor, meninas, sem histeria).

Na época, ninguém imaginava o risco do compartilhamento de seringas, ainda mais considerando que o público em questão - atletas - são referência em saúde.

Mas essa foi a causa da disseminação do vírus da hepatite C entre um número hoje incalculável de ex-atletas profissionais.
Silenciosa, a hepatite C permaneceu (e, em alguns casos, ainda permanece) sem manifestar-se durante anos e até décadas.

Desconhecendo seu diagnóstico e, por isso mesmo, sem os cuidados necessários e tratamento adequado, muitas vidas estão sendo perdidas pela descoberta tardia da hepatite C, quando pouco ou nada resta a se fazer pelo infectado já em grau elevado de comprometimento do fígado.
A grande incidência do vírus da hepatite C entre ex-atletas levou a  Federação das Associações de Atletas Profissionais - FAAP, em conjunto com a Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) a iniciar em 2010 uma campanha em âmbito nacional. Segundo a entidade, a campanha tem o objetivo de alertar toda a comunidade e, em especial, ex-atletas sobre a importância de se fazer o exame que detecta a hepatite C.

Se você, leitor, ex-atleta ou não, compartilhou seringas mesmo que apenas uma vez na vida, ou se fazia uso frequente de medicação intravenosa em farmácias quando as seringas ainda eram de vidro e a esterilização questionável, não deixe de pedir ao seu médico na próxima consulta o exame de detecção da hepatite C. Faça isso mesmo que se sinta com a saúde perfeita, pois, como já foi dito, a hepatite C pode não apresentar sintomas por décadas.